Há cura para o Machismo?

Ficou longo, mas acredito que todo mundo deveria ler e contar sua experiência da mesma forma.

Li um texto-depoimento naquela página Moça, você é machista e resolvi também contar uma experiência sobre Álcool + Mulher + Festa + Amigos. O texto da página é sobre um cara que deixou de frequentar as rodas sociais que tinha porque impediu o estupro (de vulnerável) de uma amiga que estava bêbada pelo seu ficante e foi desapoiado pelos convidados da festa. O meu texto não tem nada a ver com esse lado do tema, mas a segurança que minhas amigas hoje tem em mim diante de um ocorrido inusitado.

Bom, quando fiz a autoescola, lá nos meus 18 anos, minha turma era muito divertida e acabávamos por sempre sairmos juntos ou conversarmos no orkut sobre o dia-a-dia e lá conheci uma menina a quem vou chamar de "S". Rolava muita paquera na autoescola, afinal, qualquer ambiente que se junte pessoas e o clima seja agradável, se torna propício a esse tipo de coisa, e a paquera rolava solta, porém S tinha namorado e não participava da azaração, restou a amizade. Com o tempo, fomos nos afastando mas nunca esquecemos aqueles momentos.

Quase 10 anos depois, advento do Facebook, resolvo procurar por "S" e a encontro formada, e em sua atividade profissional que não revelar por Natal ser pequena demais para se falar "de" ou "em" alguém. Trocamos o velho: (oi, tudo bem?! :)) e reativamos a amizade. Agora estava solteira e totalmente decidida, o que contrastava com a mocinha calada que conheci. Eu tava encantando e marcamos de sairmos juntos e assim foi.

Eu não tinha carro, ela tinha o dela e fez questão de vir me pegar em casa. Era a piadinha da autoescola reacendida: Ela dizia que seria a melhor motorista de Natal. De fato, ela dirigia super bem, apesar de xingar muito a cada cortada que levava. Rimos muito a noite inteira. Bebemos e fomos pra casa, nada demais. Ficamos juntos e nos beijamos no portãozinho da minha casa um pouco depois que estávamos falando sobre as folhas que caiam de uma árvore gigante na entrada da garagem.

No outro fim de semana, amigos de um projeto social que participava me avisaram do encontro com uma galera de outro estado, do mesmo projeto social, e que iriamos mostrar a Ribeira a essa turma. Pensei: vou chamar "S". Ela topou na hora. Veio com um saião hippie e uma blusa branca que contrastava com seus cabelos negros como a noite. Estava absolutamente linda.

O que se seguiu foi aquele velho papo de amigas ciumentas: "me apresente sua namorada". E elas investigavam tudo sobre "S" enquanto eu me distraia com uma longneck e um calton creme (sim, eu fumava) falando com a turma em turismo por Natal. No meio da noite eles disseram: trouxemos cachaça de engenho!!!

Pra quem nunca bebeu, cachaça destilada é tranquilo demais em relação a cachaça de engenho porque esta é doce e suave em relação a aquela. E, num súbito disparate, "S" disse: eu quero beber isso. E bebeu. E bebeu novamente. E bebeu novamente... e já não estava mais em si mesma. E sempre querendo mais.

Decidimos entrar no Galpão 29 para finalizar a noite, "S" havia perdido totalmente a timidez inicial e começou a sensualizar da entrada até a escuridão dos corredores dentro da boate. E toda vez que eu me distraia, ela estava dançando com outras pessoas que nunca viu. Eu estava totalmente lúcido e no momento em que ela ficou nesse estado, eu decidi parar de beber, prevendo que não daria certo os dois ficarem alcoolizados. Tentei suspender a bebida dela, mas ela sempre arrumava um jeito de estar com um copo de cerveja ou cachaça na mão. Ela queria mesmo era se acabar ali. Deixei rolar quando ela me falou abertamente que precisava daquilo.

Lembro dela ter beijado uns 3 homens e umas 5 mulheres ali dentro. Minhas amigas perceberam o fim de festa e nos propuseram terminarmos a noite no "paraíso" em Ponta Negra (antigamente era o quiosque 29), depois de muito insistir, "S" concordou em ir, mas não antes de agradecer a todo mundo pela noite.

Não estava com raiva dela, pelo contrário, ali era o momento dela extravasar sabe lá o quê ela precisava extravasar. Chegamos em Ponta Negra e o mar possui uma interação mágica com nosso organismo... Ela vomitou muito. Muito mesmo. E eu tinha guardado um confeito de menta (fumantes entendem) pra caso a glicose dela baixasse. Guardei o celular dela em minha jaqueta, assim como o documento e as chaves do carro dela.

A festa continuava, mas eu tive que me isolar com ela pra ver se ela dormia e o efeito do álcool passava. "S" me falava sobre um grande amor dela que morava na Irlanda e eu a segurava enquanto ela estava deitada em meu colo. E assim ficamos por um bom tempo. Ela pediu minha jaqueta, eu a cobri com ela. Ela pedia água, e eu corria atrás de um copo. Ela dizia que a culpa era dela por ter estragado a noite, e eu dizia que aquela noite tinha sido a mais engraçada da minha vida.

Ela melhorou um pouco e decidiu ficar sozinha de frente ao mar. Aos poucos foi entrando (com roupa e minha jaqueta) e deu um mergulho. Pensei: pronto, ela vai querer se matar. E corri pro mar. Ela sorriu e disse: vamos pra casa, eu não tô legal.

A chave, milagrosamente, ficou presa na jaqueta, mas os documentos do carro e o celular haviam se perdido no mar. Decidi ficar calado quanto a isso, me despedi dos meus amigos e amigas, e entramos no carro. As 4h15m não tínhamos para onde ir. Não sabia onde era a casa dela, ela simplesmente APAGOU dentro do carro e, ao contrário da expectativa machista, decidi levá-la pra minha casa. Liguei para meus pais e avisei a situação (imaginem seus pais recebendo uma ligação de madrugada) e quando cheguei em casa, meu pai estava no portão e minha mãe apenas observando a cena.

Minha mãe pediu pra levar uma cadeira até o banheiro e a deixei sentada lá enquanto minha mãe a banhava para tentar diminuir os efeitos da cachaça. No final, emprestou uma camisola que tinha. "S" tremia de frio e falava coisas inaudíveis. Só entendiamos "me desculpem por isso". Eu a deixei em meu quarto e fui dormir na sala.

Só acordei umas 9h, fui até o meu quarto e "S" estava dormindo ainda. Lembro que alisei seu cabelo que, de forma engraçada, cobria todo seu rosto. Eu ri sozinho: "Que cachaça fdp". Ela acordou e estranhou o quarto, apenas dizendo: "Não diz que eu dei trabalho". E eu respondi: "não, você não deu". Entrei as roupas dela e a chave do carro. Expliquei que havia perdido o celular dela e os documentos do carro. Que tava distraído e que eu tinha sido o responsável por aquela perda.

Ela ficou MUITO, mas MUITO irritada. Agradeceu meus pais, mas não trocou uma palavra comigo. Entrou no carro, abri o portão, ela saiu e nem deu adeus. Não reclamei. Apenas fiquei sorrindo e voltei a dormir.

"S" viajou para a Irlanda e lá mora até hoje. Talvez sem nunca saber o quanto embriagada ficou e o quanto estava vulnerável, se eu não tivesse um senso de responsabilidade interno e, o que acredito, caráter em não precisar me aproveitar para obter sexo.

Minhas amigas? Hoje ficam alcoolizadas, mas tem a certeza que comigo podem contar, inclusive para sair de casa e ir deixá-las em casa, mesmo sem ter participado da festa. "S" ficou marcada em meu círculo de amizade como a menina caladinha mais louca do mundo.

Eu ganhei muito mais em ter sido homem de verdade. Ganhei a confiança de todas as minhas amigas. E pra mim, isso valeu muito mais que qualquer sexo com um zumbi alcoolizado.

E assim foi.

O valor das (minhas) coisas

Dizem-me (disseram...) que tenho uma relação estranha com o dinheiro (não era bem esta a frase, mas não estou a deturpá-la).

Admito que sim.

Sinto que na nossa viagem por esta vida não somos donos de nada, somos apenas quem usa, quem, durante algum tempo, conquista o direito de utilizar determinados bens que... estão por aqui.

Que se consomem, se caducos, que ficam por aqui, se mais duradouros; mas que nunca são nossos.

Por isso, faço um uso perfeitamente abusivo daqueles bens que foram colocados à minha disposição, quer os que me chegam graciosamente, mas principalmente dos outros, aqueles cujo acesso me custou a obter.

De um modo geral, coisas que tem um certo valor... emocional ou material. Não que os tenha assim tanto, mas pronto...

Gasto, de modo quase indisciplinado: comigo, no que me dá prazer, acarinhando-me com aquelas coisas que me fazem sorrir (revistas em quadrinho, cinema com direito a pipoca gigante, jogos de videogame, DVD´s comprados a 1,99) - mesmo quando sei que o prazer que elas me dão é momentâneo, que vai, mais cedo que tarde, desaparecer.

Gasto, de modo quase desinteressado: com os outros, quando sei que lhes dá prazer (presentinhos, mimos, realizar pequenos sonhos).

Gasto dinheiro, sim, muito, tanto que nem é bom pensar nisso; mas também tempo, que ainda tenho menos que dinheiro, e, por vezes, até suor (haverá quem diga que isso até me fará bem...).

E isto, na minha estranha teoria, não constitui qualquer forma de altruísmo ou desinteresse, bem antes pelo contrário, é egoísmo no estado mais puro que possa existir: o maior prazer é mesmo meu.

Garanto.

Porque se aquilo que por aqui vou usando não são coisas minhas, há outras que são apenas minhas e das quais não quero sequer pensar em abdicar: os sorrisos que vou vendo nas caras de quem está do outro lado... nem que para tal tenha ir por caminhos verdadeiramente obscenos.... Porque o prazer que disso retiro não se mede em dinheiro.

E é dele que hoje menos preciso... apesar de quase não tê-lo.

Dentro de casa

Nunca entendi as motivações de quem, a partir de determinado momento, confunde valores com valores, colocando em primeiro lugar aqueles que trazem um aparente maior conforto; e também não entendo que alguém entenda que o conforto do conforto possa alguma vez confortar mais que a paz de espírito que nos permite dormir descansados todas as noites.

Contam-nos histórias, diferentes versões de uma mesma realidade que aparentemente não tem explicação, que ouvimos com um sorriso distante: acontece sempre aos outros. Até porque aqueles que estão perto de nós seriam incapazes de tais ações, afinal sabemos bem quem são, foi uma vida inteira de convívio e sempre estiveram do nosso lado quando, conosco, ouviram as mesmas tais histórias e as condenaram mais amiúde e com maior veemência do que aquela indicada pelo nosso distante sorriso.

Até ao dia.

Até ao dia em que verificamos que é mesmo verdade que o conforto do conforto conforta mais que dormir à noite, que verificamos que continuam mesmo a dormir à noite, quando nem querem saber que é deste lado, afinal, que não se dorme a essa hora.

A esta hora.

Afinal, se pensarmos bem, sempre soubemos quem são, apenas nunca nos questionamos a esse respeito, nunca colocamos as personas no cenário das diferentes versões da tal realidade que nos contam: talvez encaixassem bem, estivéssemos atentos aos exemplos passados.

Talvez na perfeição.

Ou talvez seja eu que sou um anormal.

Eu gostaria de ter um blog...

…desses muito bem escritos, como os de autores que aliam na perfeição um conteúdo interessante e perspicaz a uma forma arredondada (ou pontiaguda, de consoante tema), de modo a que o leitor melhor sinta as intenções subjacentes, que conseguem fazer pregar o visitante ao ecrã, obrigando-o a ler uma segunda vez, não por não ter entendido o assunto na primeira leitura, mas por terem sentido o texto tão intensamente;

Eu gostaria de ter um blog desses, significaria que a minha veia era efetivamente literária, não apenas veia de aprendiz de escritor, alguém que não consegue mais que juntar letras e palavras de forma perceptível, que tenta não cometer (mas comete) erros gramaticais ou simples dislexias momentâneas que sobrevivem a uma rápida e quase cega revisão;

Eu gostaria de ter um blog desses, daqueles que muitos lêem e se tornam populares, forma de ver reconhecida a capacidade do autor em versar de forma cativante ainda que sobre matérias não interessantes, que angariam aliados e amigos virtuais através das características da escrita;

Se eu tivesse um blog desses seria também por ter tempo e espaço físico para pensar mais em mim, no mundo, na vida; seria por ter disponibilidade temporal para ler, ouvir, visitar; seria por ter uma vida mais interessante e mais digna de ser lida.

Se assim fosse, sim, eu gostaria de ter um blog.

Desses aí que chamam-se blogs.