Reflexões sobre o Sofrimento

Angústias impensáveis, tristeza, desespero, decepção, frustração, raiva, abandono, solidão, falta de amor, baixa-estima, traumas... Longa é a lista de emoções, sensações e situações que geram sofrimento emocional. Fugir deles? Seria muito bom se pudéssemos fazer isso sem maiores consequências, que houvesse uma tecla que apertássemos e pronto, deleted; ou até mesmo uma cirurgia superespecializada para extirpar aquilo que nos faz sofrer... E o mundo todo poderia ser diferente, um paraíso idealizado onde tudo funcionasse, onde o banco não cobrasse juros do cheque especial, onde não houvesse trânsito, traições, guerras e onde as nossas necessidades fossem atendidas prontamente.
Mas não é assim. Não dá nem pra fantasiar, porque até mesmo aquele livro que eu gosto, a novela, ou até a história do conto de fadas só faz sentido porque há drama, há sentimentos bons e ruins, há lutas e vitórias, há derrotas também, há a morte, há dor e há prazer.
Fugir do Sofrimento é se ausentar da própria vida, da lida com a realidade, de si mesmo. Sofrer faz parte! Que parte chata, desagradável, doída! Mas quão real, construtivo e enriquecedor se pudermos nos apropriar e dar lugar e acolhida ao nosso próprio sofrimento. Simplesmente porque é noso e porque faz parte de nossas vidas, da nossa história e da nossa realidade.
O Sofrimento é nosso individualmente, enquanto pessoas, e é nosso coletivamente, enquanto comunidade humana. Há emoções compartilhadas por todos: as alegrias e celebrações dos nascimentos e casamentos, a ternura diante dos bebês, o luto das mortes, a indignação diante de atrocidades e catástrofes.
Mas até para sofrer precisamos ter aparato, estrutura e saber que podemos atravessar a dor e sair dessa travessia mais humanos, fortalecidos e criativos. A Primeira vez que ouvi isso em uma aula, achei interessante o discurso. Pensei comigo: "mas eu já sofri tanto, já passei por cada uma e não estou me sentindo necessariamente mais humano, fortalecido e criativo com isso. Na verdade estou cansado, farto. Isso é conversa de Psicólogo, de masoquista ou de budista".
Mas existia um fato irrefutável. Estava novamente ali sofrendo, angustiado e mesmo depois de todos os episódios anteriores da minha vida, parecia ainda não ter aprendido a lidar com isso, ou comigo, ou com o meu próprio sofrimento. Na verdade descobri que era especialista em fugir dele, em mudar realidades, em ocupar minha mente com atividades intelectuais, em construir novos cenários nos quais eu esperava, ansiava e fazia tudo da melhor maneira possível para que ele não estivesse incluído. Na verdade estava sempre comigo porque era meu. Meu Sofrimento, minha dor.
Num primeiro momento, quando me dei conta disso, fiquei indignado e com muitas questões. "Puxa vida, pensei que já tinha sofrido tanto e ainda tem mais? quanta energia e quanto tempo gastos fugindo desse sofrimento, da tristeza, da angustia, do desespero, da sensação de vazio! Será que meu espírito de luta, de sacudir a poeira e dar a volta por cima é genuíno mesmo ou será que é mais um mecanismo para escapar da dor?"
Mas sempre acreditando na possibilidade de cada ser humano encontrar o seu próprio caminho, sua singularidade, seu ser e fazer no mundo, sua forma de viver o melhor possível dentro da sua realidade, de transformar a relidade e de criar o novo, me dei uma chance. Chance de atravessar meu próprio sofrimento, de me apossar daquilo que era meu e que sempre optei - por falta de condições emocionais para suportar a dor, por medo, por falta de autoconhecimento, por falta de conhecimento e por falta de outro ser humano que pudesse me ajudar nessa travessia- por deixar de lado.
O outro. Que fundamental é o outro. Precisamos dele desde pequenos para significar nossa própria dor, para dar contorno e sentido. Dessa forma, o sofrer é só uma passagem, natural como o prazer e a alegria, e não uma ameaça de cair num abismo escuro infinito.
Ainda não sou um especialista em atravessar tempestades no deserto das dores e, para falar a verdade, não almejo ser. Contudo, agora sei que posso atravessá-las, saio mais fortalecido delas, mais apossado de mim e com menos medo. As travessias estão mais curtas, pois estou aprendendo a lidar com o deserto e as tempestades. Eu passo por eles e não me perco neles. Criativo? Não sei, isso vamos ver. Depois vocês me contam.

Um comentário:

  1. Você escreve bem,tenho dito.
    .

    Sobre o sofrimento eu também seria capaz de escrever um livro.
    [assim como disse sobre o assunto do outro post]
    Aqui,faço das minhas palavras as suas...
    Só acrescento que é na minha dor que eu expresso toda a força da minha fé.
    E é também nesse momentos que Deus demonstra todo seu amor por mim.
    Nos momentos de dor,eu apenas espero e deixo acontecer...
    ...porque na vida,NADA acontece sem motivo,sem finalidade.

    Eu AMADUREÇO!
    (é isso não cansa,Davs)
    Sofrer faz parte,concordo,e não esqueça: aprendemos mais com as tristezas de que com as alegrias.
    Também não sou especialista em atravessar tempestades,mas as atravesso com garra...

    "Quando perco todas minha força, então tenho a força de Cristo em mim."(2corintios12:9)
    -- meu versiculo favorito.

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