Novo filme do Batman: NÃO leve sua criança para o cinema

Os tempos mudaram. Os filmes de heróis também. Mas nenhum foi tão dramático e tão longe quanto esse novo Batman: O Cavaleiro das trevas. O título não podia ser mais perfeito (a não ser que fosse uma filmagem da HQ homônima), pois a estrutura do personagem finalmente delineou-se em sua forma final, que se deve totalmente a Frank Miller e sua premiada Graphic Novel. E o Coringa não poderia ficar de fora, e teve sua psique baseada em outra Graphic Novel consagrada, de autoria de Alan Moore: A piada mortal. Pode-se dizer que essas duas HQs definiram o estado da arte dos quadrinhos, nos anos 80, e não por acaso essas foram as únicas que guardei da minha infância, como memoriais físicos das "histórias que formaram meu caráter".

Bem que o pessoal falou nos comentário que eu tinha de fazer um post com esse filme. Voltei dele agora e já tava louco pra começar a escrever. E pensar que não estava empolgado pra ver... sabe, quando eu vi aquela moto e uma nova armadura no trailer pensei: f$#eu, já tão pensando em vender novos bonecos e acessórios pra criançada, mas graças a Deus esse filme DEFINITIVAMENTE não é pra criança (se essa notícia se espalhar, o que vai ter de muleque querendo ver Batman...). Enquanto a franquia Batman estiver com Christopher Nolan, ela estará em boas mãos. O cara foi diretor, produtor e roteirista, as três coisas que podem matar um bom filme, e se Batman desse errado, a culpa seria toda dele. Assim, os méritos também são todos dele, e é a ele que nós nerds devemos nos curvar e dizer: "obrigado por elevar os filmes de super-heróis ao nível das Graphic Novels".

O filme é extremamente violento (não graficamente, mas psicologicamente), perturbador, tenso, NÃO é politicamente correto (o que me lembrou os bons filmes outsiders, como Mad Max e Cães de aluguel). A atuação de Heath Ledger é perfeita, distanciando-se da imagem consagrada dos quadrinhos (e que Jack Nicholson fez maravilhosamente) e aproximando-se da insanidade do Coringa de "A piada mortal". Assim, ele não se torna um arlequim, e sim o pior que um palhaço pode evocar numa pessoa (o homem por trás da maquiagem). Infelizmente o perfeccionismo de Ledger o levou a lugares sombrios de sua mente, na preparação do personagem. De acordo com este site, "para se preparar, (Ledger) decidiu mudar drasticamente sua rotina. Visando ficar inteiramente longe da família e dos amigos para se concentrar no trabalho, mudou-se para um quarto de hotel. Foi lá que deu uma nova cara ao Coringa, mais sombria, mais maldosa, mudando sua postura e voz. Além de buscar inspiração no clássico Laranja Mecânica e no punk rocker Sid Vicious, Heath escreveu um "Diário do Coringa", com os pensamentos do vilão, além de uma compilação de material que a figura bizarra acharia "engraçado" (um exemplo delas é AIDS). O objetivo era se afundar na personalidade do monstruoso palhaço, e o ator conseguiu durante os quase sete meses de filmagens – o que foi ótimo, mas literalmente fatal. Talvez essa total entrega ao personagem tenha colaborado para levar Ledger a um lugar sombrio demais. Foi uma jornada estressante, e a energia dispensada ao Coringa o deixou esgotado. Em novembro de 2007, durante algumas entrevistas concedidas no lançamento de Não Estou Lá, Ledger parecia não estar bem de saúde, e confessou que havia passado a sofrer de ansiedade e insônia crônica, o que o levou a usar uma série de medicamentos pesados, prescritos por médicos. Deprimido, Heath entrara em um espiral de problemas psicológicos que três meses mais tarde culminaria em sua morte, por overdose acidental de remédios controlados."

Eu não lembro quando foi a última vez que fiquei tenso num cinema (acho que foi em O Exorcista), mas fiquei com esse filme. O Coringa é um personagem realmente imprevisível e mortal, e obviamente rouba o filme. Muitos vêem isso como uma crítica, o fato do Batman ter ficado em segundo plano, mas isso é o que acontece nos quadrinhos também. De certa forma, o Coringa É o Batman, e a equipe de marketing captou isso brilhantemente.

Mas isso é algo a ser desenvolvido mais abaixo, na - como diria o Jovem Nerd - ZONA DE SPOILERS!!!

Portanto, não continue a ler se não viu o filme.

O filme é uma grande viagem à mente do Batman. Tudo o que tornou Bruce Wayne no que ele é não poderia ser resumido no trauma de infância de ter seus pais assassinados. Se essa foi a tônica do primeiro filme do Batman (o de 1989), isso já começou a ficar meio de lado na refilmagem de Christopher Nolan, Batman Begins (2005). Mais do que o trauma, pessoas foram moldando o caráter do personagem, e isso o torna crível, REAL, HUMANO! O homem dentro da armadura nada mais é do que um personagem, uma caricatura, assim como o Bruce Wayne da sociedade também o é! E onde fica o espaço pra o ser humano Bruce? Isso foi insinuado, mas pouco explorado no primeiro filme e agora mergulhamos fundo nisso por 3 horas de duração (sem encheção de linguiça. Podia até ser maior um pouco). Já foi dito que o homem é produto do meio, e Bruce, mais do que muitos, é produto de Gotham, uma cidade mergulhada na corrupção, no cada um por si, na descrença das instituições e dos valores éticos e morais, muito parecida com um certo país de terceiro mundo. É Gotham o grande personagem do filme, e Batman (e o Coringa) são reflexos opostos (mas muito parecidos) desse meio.

O papel da sociedade é colocado em xeque pelo filme, e se por um lado ele nos mostra um Batman preocupado com a mensagem que está passando pra sociedade (caras fantasiados usando armas pra caçar bandidos) por outro fica claro que na sociedade temos um assassino em potencial dentro de cada um de nós. O que nos torna DE FATO um criminoso é apenas a falta de escrúpulos ou coragem. Todos nós já tivemos vontade de quebrar alguma coisa, dar um murro no chefe ou ter um tanque de guerra pra passar por cima do boyzinho atrapalhando o trânsito. Mas nós temos um freio que, na psicologia, se chama Superego. Temos o Id, que é a estrutura da personalidade original, básica e central do ser humano. Ele está representado pelos instintos mais básicos, como o prazer ou necessidades. O Ego é a parte que está em contato com a realidade externa, e desempenha a missão de obter controle sobre as exigências dos instintos, decidindo se elas devem ou não ser satisfeitas. E o Superego atua como um juiz ou censor sobre as atividades e pensamentos do Ego, é o depósito dos códigos morais, modelos de conduta e dos parâmetros que constituem as inibições da personalidade. Freud descreve três funções do Superego: consciência, auto-observação e formação de ideais. O Coringa seria o cara sem Superego, e, se brincar, sem muito Ego também.

Adoro a frase do Coringa, que diz "Não tenho planos. Eu sou como o cachorro correndo atrás do carro. Não saberia o que fazer se o alcançasse". É exatamente esse o papel dele, ser o catalisador da degeneração social, da inversão de papéis, nada mais. Ele não quer dominar o mundo, não quer dinheiro, nem fama. Só quer perturbar. Ele é o perfeito anarquista, o destruidor da ordem, sem procurar colocar outra no lugar. Ele é o louco da carta do Tarot. O homem sem limites. Mas o Batman também não conhece limites, e isso é dito por Bruce no filme. Batman é um justiceiro à margem da lei, à margem do pacto social, onde abdicamos da lei de Talião em favor da justiça representada pelo Estado. E o Coringa é um arruaceiro à margem da lei não só do Estado, como a do submundo do crime. E ele age no sentido de destruir os valores que norteiam o Superego coletivo, o pacto social que nos faz sociedade. E aí vemos o quão frágeis são as relações humanas. A cena dos barcos é antológica, merece entrar pra história do cinema por reunir tanta tensão, reflexão e mensagem. Com o Coringa diz, é um "experimento social" que mostra que quando o cidadão está com seus interesses em jogo, volta pro estado de natureza, do cada um por si, e "dane-se o outro". A farsa, a Matrix que é a sociedade, a civilização, desaparece como um passe de mágica, porque não está calcada em valores morais, e sim MEDO, coação. Se antes as sociedades se formavam em torno do Shamã, do mais sábio, hoje temos líderes que são eleitos por nos proporcionarem mais vantagens, mais esmola. Sociedades assim não subsistem se não houver coação, leis cada vez mais rigorosas, medo e violência crescentes que intimidem e façam o cidadão buscar a proteção do Estado, com sua violência "legítima". Esta discussão é válida para os EUA de Bush (sob o domínio do medo), mas mas válida ainda para o Brasil atual dos policiais que deviam nos proteger e que estão tão assustados quanto nós, só que eles têm uma arma e atiram sem saber em quem. Um país que precisa botar na cadeia a mulher que bebe 2 chopps pra que um alcóolatra irresponsável deixe de dirigir sem condições. Por que? Porque a EDUCAÇÃO falhou. A CONSCIENTIZAÇÃO falhou. Por que? Porque nunca houve uma cultura da educação no Brasil, da valorização do certo, do justo. Assim, o cachorro que morde o dono precisa ser amordaçado, e muitos pagam pelo erro de outros tantos. Voltando à cena do barco, o cidadão "respeitável" trazia toda uma bagagem de argumentos no sentido de livrar a própria pele, mas não quis assumir a responsabilidade na hora de apertar o botão. E o Coringa (novamente ele, com as melhores falas) disse algo como "é normal esperar que eu ataque policiais, faz parte do jogo. Mas quando eu ataco os interesses do cidadão, ele se desespera". Por que confrontos sangrentos entre policiais e bandidos devem ser "normais"? Por que devemos nos acostumar com a violência estampada diariamente nos jornais? Será que precisaremos de mais "Casos Isabela" e mais policiais matando crianças pra que alguém que toque de que o sistema está falido? De que vamos viver nos matando porque não fomos ensinados a conviver um com o outro, e que tudo o que sabemos fazer é tirar o corpo fora e evitar de sermos a próxima vítima? A lição do presidiário foi um tapa na cara não só das sociedades, como do papel do cidadão atuante que pode fazer toda a diferença.

Aí reside a tônica do filme, na figura do procurador Harvey Dent, o "Cavaleiro Branco", como era conhecido em Gotham. Ele é a figura do bem, sem máscaras, atuando dentro da Lei e da Ordem. Diante disso, Bruce percebe que o "caminho do Batman" é um caminho degenerado que só vai trazer mais violência e dor, embora funcione num certo nível. E no final se torna, assim, o "Cavaleiro Negro" (Dark Knight), a antítese do correto, do justo. Ele não se vê mais ser um exemplo, mas a cidade, no nível em que está, ainda precisa dele. O paralelo com nosso país é evidente, pois ainda precisamos do "herói" Capitão Nascimento, um avanço do "Trickster" Macunaíma , mas muito distante do arquétipo do Herói.

3 comentários:

  1. Que análise foi essa?!!!
    Você abriu minha mente...não tinha tirado tantas conclusões de filme.
    Sem dúvida, o filme do ano!!!

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  2. Que bom que você voltou a escrever...

    :D

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  3. ...ainda não assistir ao filme.
    mas deu vontade agora.
    Pra conferir o que você afirma e tirar minhas conclusões.

    É uma pena,aqui so tem dublado.
    E ninguem merece Batman dublado!
    Acho que eles precisavam ouvir você dizer "não leve sua criança para o cinema"


    HAUhauHUAHhauAH

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