Dignidade



Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

- Ei, mendigo, sai daí. Aqui não é lugar de vadiagem, não.



- Na verdade estou esperando pra falar com o presidente.


- Sai daí, rapaz! Quer tirar uma com a minha cara?


- Eu não tenho mais pra onde ir, então vim aqui.


- Por que não procura uma ponte pra ficar, ou uma esquina pra pedir esmola?


- Não tem disso aqui em Brasília, mas de onde eu vim já fiz tudo isso.


- E o que é que você tá fazendo aqui?


- Como eu disse, vim falar com o presidente. Se ele não respeitar a Constituição, eu rasgo essa porcaria. Li aqui que é um direito social a assistência aos desamparados, e eu definitivamente sou um desamparado.
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.



- Onde você arranjou esse livro?


- Achei no lixo.


- E desde quando mendigo lê Constituição?


- Nem sempre fui mendigo. Tenho educação. Primário, mas tenho... Era o primeiro da classe, mas tive de sair pra cuidar da minha mãe, trazer dinheiro pra casa. O médico disse que ela tinha uma doença de nome estranho aí, e que tinha de tomar uns remédios caros... Ainda tentei ficar na escola e pedir dinheiro no sinal à noite, mas ficar o dia todo dava o dobro de dinheiro, e eu precisava daquilo pra minha mãe. Mês sim mês não conseguíamos comprar os tais remédios, e a saúde dela foi ficando cada vez mais fraca, mas ela resistia bravamente.Os meus colegas de "trabalho" descobriram que podiam aumentar bastante a renda roubando alguns passageiros, em engarrafamentos, mas minha mãe sempre me disse pra nunca, em hipótese alguma, fazer isso. Ela estava certa, não podia correr o risco de "rodar" e deixar minha mãe sozinha. E alguns dos meus colegas "rodaram" feio...Minha mãe então piorou e "apagou". Depois de horas esperando atendimento, tudo o que fizeram no hospital foi botar ela no soro e mandá-la pra casa. Ao menos o soro era de graça. A vizinha é que trocava os tubos. Depois descobri nesse livrinho que todo cidadão tem direito a saúde. Há. Se a idéia de saúde for soro, tudo bem, mas não é que parece ao se ler...

Art. 196º A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.


- Aí descobri com uns caras um esquema que dava dinheiro sem precisar roubar. Bastava trepar com uns gringos que eles pagavam até em dólar.- Pô, vc deu pros caras?



- Dei, comi... na minha situação não dava pra escolher. Com o dinheiro consegui dar mais tempo de vida à minha mãe. Ela até chegou a recobrar a consciência, mas ficou meio lelé com o "apagão". Disseram que foi por falta de socorro... da minha parte é que não foi! Se eu tivesse lido esse livrinho antes, talvez até eu pudesse reclamar no hospital... mas que diferença faria na prática? Nunca vou saber. Minha mãe morreu praticamente sem assistência do Estado. Não fosse eu e as vizinhas... Mas pelo menos minha mãe não teve de ver o filho ser a vergonha do bairro. Quando descobriram que eu fazia michê pra gringo, quiseram me bater, me violentar e me matar. Tive de fugir com a roupa do corpo.

Art. 5º XXII É garantido o direito de propriedade.


- Viver na rua não é fácil. Mas fui vivendo de favores aqui e ali, alguma comida que davam, uma roupa doada, mas não aparecia nenhuma oportunidade de trabalhar. Até que achei esse livro. Fui na prefeitura, e riram na minha cara. Na Assembléia Legislativa, não consegui nem entrar. Então pensei: esses políticos é que são tudo um bando de corruptos sangue-sugas, talvez em outro estado eles respeitem os direitos do cidadão. Consegui carona - não me pergunte como - com caminhoneiros e rodei por muitos lugares, mas em nenhum fui tratado como cidadão. Foi então que eu vim praqui, pra Brasília, tentar com a única pessoa que eu acho que poderia se sensibilizar. Afinal, ele teve uma vida difícil, já foi pobre como eu. Não vim aqui atrás de esmolas. Vim aqui atrás de dignidade. Quero trabalhar, quero estudar, quero ter o que é meu sem roubar, mas pra isso é preciso dar um mínimo de condições.



- Rapaz, eu sou só um segurança, mas juro que se eu pudesse, lhe colocava na frente do Presidente... mas o fato é que meu superior não vai gostar nadinha de ver você por aqui... você me entende, não? Agora, por favor, vai andando...


- ...


- ...e boa sorte.