O valor das (minhas) coisas

Dizem-me (disseram...) que tenho uma relação estranha com o dinheiro (não era bem esta a frase, mas não estou a deturpá-la).

Admito que sim.

Sinto que na nossa viagem por esta vida não somos donos de nada, somos apenas quem usa, quem, durante algum tempo, conquista o direito de utilizar determinados bens que... estão por aqui.

Que se consomem, se caducos, que ficam por aqui, se mais duradouros; mas que nunca são nossos.

Por isso, faço um uso perfeitamente abusivo daqueles bens que foram colocados à minha disposição, quer os que me chegam graciosamente, mas principalmente dos outros, aqueles cujo acesso me custou a obter.

De um modo geral, coisas que tem um certo valor... emocional ou material. Não que os tenha assim tanto, mas pronto...

Gasto, de modo quase indisciplinado: comigo, no que me dá prazer, acarinhando-me com aquelas coisas que me fazem sorrir (revistas em quadrinho, cinema com direito a pipoca gigante, jogos de videogame, DVD´s comprados a 1,99) - mesmo quando sei que o prazer que elas me dão é momentâneo, que vai, mais cedo que tarde, desaparecer.

Gasto, de modo quase desinteressado: com os outros, quando sei que lhes dá prazer (presentinhos, mimos, realizar pequenos sonhos).

Gasto dinheiro, sim, muito, tanto que nem é bom pensar nisso; mas também tempo, que ainda tenho menos que dinheiro, e, por vezes, até suor (haverá quem diga que isso até me fará bem...).

E isto, na minha estranha teoria, não constitui qualquer forma de altruísmo ou desinteresse, bem antes pelo contrário, é egoísmo no estado mais puro que possa existir: o maior prazer é mesmo meu.

Garanto.

Porque se aquilo que por aqui vou usando não são coisas minhas, há outras que são apenas minhas e das quais não quero sequer pensar em abdicar: os sorrisos que vou vendo nas caras de quem está do outro lado... nem que para tal tenha ir por caminhos verdadeiramente obscenos.... Porque o prazer que disso retiro não se mede em dinheiro.

E é dele que hoje menos preciso... apesar de quase não tê-lo.

Dentro de casa

Nunca entendi as motivações de quem, a partir de determinado momento, confunde valores com valores, colocando em primeiro lugar aqueles que trazem um aparente maior conforto; e também não entendo que alguém entenda que o conforto do conforto possa alguma vez confortar mais que a paz de espírito que nos permite dormir descansados todas as noites.

Contam-nos histórias, diferentes versões de uma mesma realidade que aparentemente não tem explicação, que ouvimos com um sorriso distante: acontece sempre aos outros. Até porque aqueles que estão perto de nós seriam incapazes de tais ações, afinal sabemos bem quem são, foi uma vida inteira de convívio e sempre estiveram do nosso lado quando, conosco, ouviram as mesmas tais histórias e as condenaram mais amiúde e com maior veemência do que aquela indicada pelo nosso distante sorriso.

Até ao dia.

Até ao dia em que verificamos que é mesmo verdade que o conforto do conforto conforta mais que dormir à noite, que verificamos que continuam mesmo a dormir à noite, quando nem querem saber que é deste lado, afinal, que não se dorme a essa hora.

A esta hora.

Afinal, se pensarmos bem, sempre soubemos quem são, apenas nunca nos questionamos a esse respeito, nunca colocamos as personas no cenário das diferentes versões da tal realidade que nos contam: talvez encaixassem bem, estivéssemos atentos aos exemplos passados.

Talvez na perfeição.

Ou talvez seja eu que sou um anormal.

Eu gostaria de ter um blog...

…desses muito bem escritos, como os de autores que aliam na perfeição um conteúdo interessante e perspicaz a uma forma arredondada (ou pontiaguda, de consoante tema), de modo a que o leitor melhor sinta as intenções subjacentes, que conseguem fazer pregar o visitante ao ecrã, obrigando-o a ler uma segunda vez, não por não ter entendido o assunto na primeira leitura, mas por terem sentido o texto tão intensamente;

Eu gostaria de ter um blog desses, significaria que a minha veia era efetivamente literária, não apenas veia de aprendiz de escritor, alguém que não consegue mais que juntar letras e palavras de forma perceptível, que tenta não cometer (mas comete) erros gramaticais ou simples dislexias momentâneas que sobrevivem a uma rápida e quase cega revisão;

Eu gostaria de ter um blog desses, daqueles que muitos lêem e se tornam populares, forma de ver reconhecida a capacidade do autor em versar de forma cativante ainda que sobre matérias não interessantes, que angariam aliados e amigos virtuais através das características da escrita;

Se eu tivesse um blog desses seria também por ter tempo e espaço físico para pensar mais em mim, no mundo, na vida; seria por ter disponibilidade temporal para ler, ouvir, visitar; seria por ter uma vida mais interessante e mais digna de ser lida.

Se assim fosse, sim, eu gostaria de ter um blog.

Desses aí que chamam-se blogs.

[ AI ] - Rubi

Por não estarem distraídos...

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector.

E eu, que era contra copiar e colar textos.

Retirado do Blog: http://mundodascoisaspequenas.blogspot.com

Contos (IM)Pessoais - Parte II

Engraçado, duas pessoas que leem este blog, me perguntaram sobre assuntos diferentes, mas que quando eu pensei sobre eles, acabei vendo que se tratava de um mesmo assunto, um defeito que quase todo mundo tem, se não todo mundo, de quando se tem o que quer, se quer mudar, ou quer mais, ou simplesmente não quer mais nada.

"Por que, quando namorando, procuramos o que nos falta em outra pessoa?" Essa é uma questão realmente complicada, não de explicar, mas de se concordar e tentar resolver, por que envolve uma coisa muito difícil de se fazer, PARAR DE TENTAR MUDAR AS PESSOAS. Como assim?

No meu entender, o ser humano é inconstante por natureza, e as mulheres tem esse defeito elevado à décima potência. As mulheres simplesmente não sabem o que querem, tem até um "stand-up" do Chris Rock , no qual ele diz exatamente isso.

Daí o que acontece, e digo isso por experiência própria, você acabou de conhecer uma pessoa maravilhosa, engraçada, que bebe socialmente, ama carros e tem uma coleção de catálogos de motos de 1932 (sim!!! Os exemplos são exagerados mesmo), mas você não se incomoda com isso… AINDA

Porém com o passar do tempo o que antes eram qualidades, lentamente vão se tornando defeitos, e de quem é a culpa? AMBOS! Sim, pois quando isso acontece, é porque ou vocês se esqueceram o por quê gostavam um do outro, ou um dos dois (quando não os dois) não estão dispostos a fazer pequenas concessões para o relacionamento dar certo.

Daí o que acontece? Bem, você está cansado das atitudes do seu parceiro, e quando vê a primeira pessoa que age de maneira diferente, ou da maneira que você esperava de seu parceiro, acaba ganhando o seu encanto e disso para uma traição é um pequeno e sedutor passo.

Isso é normal, todo relacionamento tem seus altos e baixos, todo mundo uma hora se cansa do comportamento do parceiro, então nessas horas existem duas coisas à serem feitas:

1) Resolver as diferenças: E é difícil fazer isso, pois os DOIS tem que se comprometer a resolver os problemas, não adianta apenas um lado fazer concessões, abrir mão de seus gostos, suas manias enquanto o outro lado nada faz. Isto apenas criará um monstrinho, onde uma parte ficará mimada e a outra estará sujeita a insatisfação, pois mudará pelo outro, mas não verá a mesma atitude vindo dela.

Mas aqui tem um pequeno problema, não se deve querer mudar as "qualidades" que a outra pessoa tem, pois foram justamente por elas que vocês estão juntos. Se ela é romântica, não peça para mudar isso, quando brincalhona, não peça para ela ficar mais séria.

Existem pequenas atitudes que se podem mudar, mas quando se mudam os comportamentos, você está mudando a pessoa; mudando a pessoa você provavelmente está fazendo ela infeliz; faça a outra pessoa infeliz, e a chance dela te trair com alguém que não a critique por ser do jeito que ela é, é grande.

Então para resolver esse problema, a primeira forma de se resolver é sentar e expor o problema, negociar (isto mesmo, negociar) acordos e tratados quase que internacionais, e tentar resolver em parceria. "Ok, eu paro de fumar, ou tento diminuir pelo menos, mas você também irá começar a estar mais presente nos eventos da minha família."

O problema é que muitas vezes uma parte cumpre a promessa, e a outra não. Quando isso acontece, a parte que se dedicou simplesmente se sente frustrado e o que antes poderia salvar a relação, desmotiva completamente a outra, e acaba piorando o que era para ser arrumado.

Então para se resolver desta maneira, tem que haver comprometimento de ambas as partes, senão, de nada adiantará.

2 ) Viajar juntos: Sozinhos, para algum lugar diferente, onde não tenha muito o que se fazer. Desta forma vocês vão ter tempo para se "redescobrir", e se apaixonar novamente um pelo outro.

Eu lembro de uma viagem com "X", onde o nosso relacionamento estava indo por água abaixo, por erro de ambos, e a solução acima não estava dando certo, justamente porque uma parte não estava comprometida. A viagem estava fadada ao desastre, mas aconteceu algo que salvou completamente a viagem, algo que nos uniu e nos deu sobrevida. Algo simples como caminhar...

Engraçado, vendo agora eu sinto que aconteceu exatamente o mesmo que o filme "A história de nós dois" (recomendo)

Para falar a verdade esse filme é a melhor explicação dos efeitos que digo acima. Então caso você não tenha nada para fazer e está com problemas no relacionamento, vejam juntos esse filme. Caso você esteja sozinho pensando aonde você errou, ASSISTA ESSE FILME… na verdade… Eu acho que todo mundo que quisesse se relacionar comigo deveria assistir esse filme, pois ele mostra o que eu realmente acredito. SIM, tem horas que você não aguenta o seu parceiro, SIM, tem horas que você quer matar ele, mas o que uniu vocês dois não pode ser jogado fora, por pior que a situação esteja.

Finalizando, o feriado que passamos juntos deu uma sobrevida ao nosso namoro, porque durante a caminhada lembramos o que fazia a gente estar junto, o companheirismo, pena que isso foi esquecido pouco tempo depois.

Então você… o que prefere, arriscar, fugir, e continuar sempre fugindo de medo de um relacionamento sério, ou ver o relacionamento como um adulto e entender que não existe relacionamento perfeito, e que todos os casais brigam, tem problemas, mas no fundo, se realmente se amam, não importa o que tenha acontecido, ou tenha sido dito, tudo tem cura!!!???

Eu cansei de correr, cansei de fugir, espero um dia encontrar alguém que veja isso da mesma forma... Pra mim, já seria mais que suficiente.

Até breve.

A inevitabilidade de fazer as pazes com o passado

O passado não desaparece, evapora-se ou transmigra para outra galáxia. Por mais que desejemos ignorar o seu paradeiro, ele está sempre perto. Bem perto.

Por vezes tive a presunção de pensar que as coisas passadas eram apenas memórias. Papéis e livros velhos guardados num caixote que está na garagem à espera de uma limpeza de primavera mais determinada que o coloque no lixo. Coisas como decisões que tomei e que não deveria, bem como aquelas opções que não tive coragem de fazer. Pensar que esse tipo de coisas ficariam enterradas no tempo e seriam assim inócuas foi um erro. Um brutal, estúpido e depravado erro.

Foi como pensar que não tenho uma sombra agarrada aos pés só porque o dia está pardacento. Foi como pensar que atropelando uma pessoa numa passadeira e colocando-me em fuga, já não tenho responsabilidade. Foi como pensar que o dinheiro que pedi emprestado não tem que ser pago só porque evito e não atendo as chamadas que me faz o credor. Só se pode pensar assim por requintada ingenuidade ou delicado atrasado mental. (Em minha defesa prefiro a tese do ingênuo.)

O meu passado ficou marcado pela covardia e ele não se conforma com esse estigma. Não perdoa o querer-se apostar numa linha de vida sem confrontos e num confortável marasmo. O passado exige a verdade e a coerência. Com o tempo uma pessoa habitua-se à mascara. O passado, dando-nos um valente pontapé no traseiro, quer visíveis as linhas genuínas da face. Sejam como sejam.

No fundo o passado não me quer estragar a vida, quer é evitar que a perca mais ainda. Com a sua acutilante crueldade de aparecer nas horas mais inoportunas e nos locais mais inesperados, ele no fundo gosta de mim. Acredito que deseja a reconciliação impossível. Só que está-se a borrifar para os jogos em que me envolvi. Talvez tenha razão. Diz-me que o caminho vai ser duro, estreito, pedregoso, com becos aparentemente sem saída e com muitos dias de cerrado nevoeiro. E um caminho em que nem sei onde vai parar. (Aqui para nós, que ninguém nos ouve, eu preferia ter uma autoestrada ao meu dispor. Com enormes cartazes azuis a indicar todos destinos com as precisas distancias que faltam. Sem pedágios e com o tanque cheio. Gratuitamente, lógico!)

O passado não desaparece e não é uma velha caixa de cartão. É poderoso e não perdoa erros e, se convir, neste seu pragmatismo, faz muito bem. Possivelmente leu e entendeu, melhor que muito boa gente, aquela frase que se atribui a Cristo: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

Amor Virtual

Amor é um sentimento incondicional, nos leva a loucura sem ao menos conhecer o par ideal. Falar sobre amor é algo que todos falam, mas senti-lo é o que todos precisam. Quando perguntamos para as pessoas sobre o que elas pensam sobre esse sentimento “lindo”, as mesmas respondem que para elas amor é carinho, respeito é simplesmente amar e ser amado.

Mas, uma pergunta faço: Necessitamos da presença, do cheiro, do beijo, ou seja, precisamos de alguém ao nosso lado para falarmos que amamos?

Claro que não, construímos “amor” de uma maneira que nem imaginamos, porque nós não sabemos distinguir o que o mesmo significa. Palavras fluem em nossos ouvidos, promessas, juras secretas e amores não correspondidos. Quantos adolescentes dizem estar apaixonados, loucos de amor, sem ao menos conhecer o sentimento que dizem ter.

Hoje em pleno século XXI, tudo se tornou tecnológico, se tornou algo incrível, onde buscamos amor em meio às conexões de nosso mundo. Mandamos mensagens à espera de outra, visitamos os “incríveis sites” até que alguém se torne on-line em nossa vida. Um simples “Oi” para tudo começar, um “Até Logo” com esperança de um dia se encontrar. São trocas de e-mails, orkut’s, o começo de uma relação sem ao menos saber a sua reação. Ligamos o No-break, depois o CPU e o Monitor, sem querer clicamos no incrível ícone, o MSN e lá está “ele(a)” lhe enviando um “Oi”.

No dia seguinte à mesma coisa, se tornou uma rotina, tornou-se o seu vicio. Sem querer construímos um “amor”. Muitas pessoas dizem que não, falam que isso é bobagem, mas espera aí, sentimento é bobagem? Não, claro que não, é simplesmente a união de dois ou mais corações, não importa a sua distância, o que importa é que conseguimos senti-lo.

São emoctions, mensagens indo e vindo, palavras de amor, saudades, brigas e lágrimas, tudo tão invisível para as outras pessoas, mas para “você” e “ele(a)” é online, ocupado, ausente e nunca invisível, se sentem tão únicos que fazem depoimentos, montagens com fotos, compram Web Cam's em busca da imagem de seu amado(a).

Começa assim do nada e não se sabe quando termina... talvez a conexão caia..., mas o difícil será não conecta-la novamente, se não conectou não há problemas, mais tarde ele(a) conecta e lá vamos nós novamente às mensagens instantâneas.

Todos a sua volta conhecem o seu grande “amor”, convidam-no(a) para sair, mas nunca aparece. Por quê será? Já sabemos, estava offline, mas não tem importância, porque nunca ficam invisíveis.

Mensagens fluem, o sentimento cresce, começa por “Olá” e termina até que o dia amanheça, marcam encontros em salas de bate papo, depois clicam em sair, são dias e noites, ele(a) lá e você aqui.

Sentimento real e em tempo irreal, assim que acredito que se constrói esse tal de “Amor Virtual”.

Descompensado

Por que descompensado?

Quem disse que eu sou descompensado?

Quem nunca teve um comportamento inusitado, uma vontade doida de gritar aos seus uma conquista ou uma raiva, alguns até de gritar correndo pelado na rua (Já perdi uma aposta por causa disto), na praia, seja lá onde for, me diga, quem?!

Tudo bem que um certo exagero atrapalha, te atrapalha, me atrapalha...

Eu juro que entendo o seu lado, afinal paciência tem limite ,esgota.

Algumas vezes até forço a minha cabecinha, procuro meu equilíbrio, meu auto-controle, mas cadê? Cadê você meu filho?! Cadê a cabeça no lugar?

Meu lado?! Quem entende? DO CONTRA, SEMPRE.

Alguém entende alguma coisa que se passa na cabeça de uma mulher? Não?! E de um homem "descompensado"? Também não? Você entende alguma coisa mesmo?

Pois é, tem gente que é movida a razão, tem gente que é movida a emoção, e eu sou descompensado, estou no nível da ultra-emoção, faço parte da última geração dos ultra-românticos.

Tá, vai, então a gente combina o seguinte: te dou um pouco da minha emoção e você me dá um pouco da sua razão. Topa?

Contos (IM)Pessoais - Parte I

Ele sabia que era impossível. Mas a desejava em seus braços, mais uma vez. E era disso que eram feitos seus segredos: mais uma vez. Em anos, em vezes, em meses. Era impossível mas era doce esperá-la, ainda que não viesse, como na última semana quando de surpresa, a ausência. Arrumou a casa, preparou o jantar. Escolheu o vinho e cuidou para que as velas estivessem cada uma em seu lugar, como se orquestrasse estrelas em seu próprio céu. O céu que daria de presente à ela.

Enfim, abriu a porta e os lábios grossos num sorriso:

- Já faz um ano.
- Um pouco mais.
- Por que demorou tanto?
- É que me apaixonei...

Então a abraçou, como se pudesse perdoá-la por enamorar-se (ensandecida), entre perfumes e mentiras. E voltar.

- Está ainda mais bonita.
- E envelhecida.
- Prefiro assim.
- E eu prefiro você.

A noite era um vento que soprava alívio àqueles corpos queimados de saudade e exaltação. Era a saia do vento, rodando entre o céu e o mar. O amor cigano, o silêncio em festa. E tudo, finalmente, em seu devido lugar.

Ela acordou duas horas antes do despertador e nunca saberia se o alarme do relógio realmente a despertaria. Nunca saberia. Mas já não precisava de bússolas nem fuso-horário, nem números, nem palavras. Mais um beijo. Um banho onde percebeu cada detalhe do seu corpo (tão) explícito. O café-da-manhã que ele preparou enquanto cantarolava aquela febre de serem dois. Dois. Um no outro, mais uma vez (aquela). Tantos anos de espaços, encontros, silêncios. E ainda eram... dois.

Felizes, sorriram(-se). E não era amor. Era água na boca. Água de riacho nascente, inundando o mundo, matando a sede da terra, das flores, das almas sacrificadas nos desertos de concreto.

Ela voltou à sua cidade, suas paredes e confusões. E sempre que o vento brinca com seus cabelos, sorri. É ele, beijando suas memórias impossíveis...

Insone... Parte 01

Certo dia me ocorreu um estranho pensamento, submisso, de modo que me calaria para sempre. Palavras que decerto sumiram, a não ser em minhas leituras; um tanto quanto pejorativas.

Enquanto meu corpo conversava deliberadamente com as cobertas, meu riso se fez cálido ao som do vento que soprava entre as persianas da janela.

Exacerbado estava o céu estrelado que tagarelava acima de mim, eu sabia que eu podia refletir, afinal, a lua que flutua entre as nuvens não teve escolha, a não ser a de que devia fugir do sol eternamente.

Suposta condição, deveras eu querer um mundo cúmplice de minhas bajulações? Conformar-me-ei, o jornal apenas dita, a responsabilidade é de quem o lê.

Quero dizer que não adianta, os beatles continuarão tocando "The fool on the hill", se algo há de ser feito, basta a autossuficiência.

Vejo além do que se pode ver.

Penso, repenso e volto à estaca zero. Sempre.

Procuro o porquê, mas não vejo nada. Enxergo pessoas tristes ao meu redor. Tenho visto muito mais do que queria. Enxergo loucuras num mundo que não se pode ver. Cenas delirantes impróprias para minha visão. Estalo os dedos e enxergo a hipocrisia me dando um tchau. Pisco os olhos e a demagogia alardeia pedindo ajuda, se julgando coitada.

Onde vou parar?

Quero apenas enxergar coisas inanimadas. Quem sabe assim minhas idéias param de acrescentar ao meu próximo um julgamento indecente. Faço uma leitura abstrata do mundo, o qual, reconheço, não consigo entender.

Percebo que ao meu lado existe uma carência eloquente, mas despercebida. Sou atraído para uma realidade, que no meu inconsciente se resume numa farsa moral. Vejo em meus superiores uma lamaceira estúpida.

Neste caso, são eles que tentam fazer com que eu não enxergue nada.

Minha visão compõe uma ingenuidade forçada, pois assim como eles, não quero ter culpa de nada. Enxergo sem que eu tenha vontade, mas os atos daqueles que transbordam ironia, são cometidos benevolamente.

2010, ano do meu TCC!

Eu ainda não sei o tema, ainda não escolhi o orientador, não sei o que fazer, como fazer, a quem recorrer, mas vamos lá. Tem que sair!!!

Fica a "tese de doutorado" do coelhinho, pra quem ainda não conhece:

Num dia lindo e ensolarado o coelho saiu de sua toca com o notebook e pôs-se a trabalhar, bem concentrado. Pouco depois passou por ali a raposa e viu aquele suculento coelhinho, tão distraído, que chegou a salivar.

No entanto, ela ficou intrigada com a atividade do coelho e aproximou-se, curiosa:

R: - Coelhinho, o que você está fazendo ai tão concentrado?
C: - Estou redigindo a minha tese de doutorado, disse o coelho sem tirar os olhos do trabalho.
R: - Humm .. . e qual é o tema da sua tese?
C: - Ah, é uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais de animais como as raposas.

A raposa fica indignada:

R: - Ora! Isso é ridículo! Nos é que somos os predadores dos coelhos!
C: - Absolutamente! Venha comigo à minha toca que eu mostro a minha prova experimental.

O coelho e a raposa entram na toca. Poucos instantes depois ouve-se alguns ruídos indecifráveis, alguns poucos grunhidos e depois silêncio. Em seguida o coelho volta, sozinho, e mais uma vez retoma os trabalhos da sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Meia hora depois passa um lobo. Ao ver o apetitoso coelhinho tão distraído agradece mentalmente a cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido. No entanto, o lobo também acha muito curioso um coelho trabalhando naquela concentração toda. O lobo então resolve saber do que se trata aquilo tudo, antes de devorar o coelhinho:

L: - Olá jovem coelhinho. O que o faz trabalhar tão arduamente?
C: - Minha tese de doutorado, seu lobo. É uma teoria que venho desenvolvendo há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os grandes predadores naturais de vários animais carnívoros, inclusive dos lobos.

O lobo não se contém e farfalha de risos com a petulância do coelho.

L: - Ah, ah, ah, ah!! Coelhinho! Apetitoso coelhinho! Isto é um despropósito. Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa...
C: - Desculpe-me, mas se você quiser eu posso apresentar a minha prova experimental. Você gostaria de acompanhar-me à minha toca?

O lobo não consegue acreditar na sua boa sorte. Ambos desaparecem toca adentro. Alguns instantes depois ouve-se uivos desesperados, ruídos de mastigação e... silêncio. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, impassível, e volta ao trabalho de redação da sua tese, como se nada tivesse acontecido...

Dentro da toca do coelho vê-se uma enorme pilha de ossos ensangüentados e peles de diversas ex-raposas e, ao lado desta, outra pilha ainda maior de ossos e restos mortais daquilo que um dia foram lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme leão, satisfeito, bem alimentado e sonolento, a palitar os dentes.

MORAL DA HISTÓRIA:
Não importa quão absurdo é o tema de sua tese. Não importa se você não tem o mínimo fundamento científico. Não importa se os seus experimentos nunca cheguem a provar sua teoria.
Não importa nem mesmo se suas idéias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos ... o que importa é QUEM É O SEU ORIENTADOR...

Sobre ônibus e gatos

Esperava o ônibus, com um gato miserável nos braços. Um gato feio e magro.
Poderia ser o menino mais triste com o gato mais feio do mundo.
Não pagaria passagem, de certeza. Sempre passou por debaixo da roleta sem reclamações do cobrador. Embora tivesse onze anos, o tamanho e a magreza lhe deixavam com corpo de criança de bem menos que isso.

A rota era a mesma, no mesmo horário, o motorista era o mesmo. O cobrador também. O menino continuava o mesmo, porém agora tinha um gato. Ele sabia que ninguém lhe cobraria a passagem...

mas e o gato?

Deixariam o gato ir sem pagar?

Tinha uns trocados que ganhara da mãe para comprar pão. Aliás, deveria voltar da aula com o pão, e não com um gato. Gato feio. Gato pobre. Gato sem comida. Magro. Mas cabia direitinho no colo do menino, mais magro ainda. O gato se aninhava, como se nunca tivesse ganhado um colo em toda a vida.

Chega o ônibus.

- Deixa o gato! – Berra o motorista.
- Eu pago pra ele... choraminga o tristonho guri.
- Gato não anda de ônibus, moleque! – Ele reconheceu a voz do cobrador ecoando no ônibus quase vazio. – Gato faz xixi e fede. Deixa ele, ou vai a pé pra casa hoje.
- Mas agora ele é meu amigo! – hesitou e soltou o que lhe agoniava há muito tempo - e você também fede!

Virou as costas e foi para casa a pé, sem pão e com o gato.

A garotinha ruiva

Existe uma para cada um de nós*

A importância de Charles M. Schulz para o mundo ainda está para ser mensurada e, sinceramente, me parece improvável que se possa medir o efeito de pílulas de melancolia distribuídas diariamente para milhões de pessoas ao redor do mundo pelos jornais. Ou ainda exibidas nas noites de domingo do SBT, antes do programa do Trem da Alegria. Essa análise tem sido realizada por infindáveis artigos e teses em disciplinas diversas (1). Por hoje, vamos nos ater à garotinha ruiva.

A garotinha ruiva é o amor de Charlie Brown (2) e uma das personagens mais marcantes de toda a série Peanuts. Apesar disso, teve uma única aparição, no especial de TV "It's Your First Kiss, Charlie Brown", de 1977 - ainda por cima, contra a vontade de Schulz. Nesse especial, ela ganha um nome – Heather - e uma personificação. Contudo, na tira de jornal, a garotinha ruiva nunca apareceu. É apenas mencionada, vista e admirada de longe por Charlie Brown, que fica atrás de uma mureta e comenta com Linus: “Não tem nome: é a garotinha ruiva”.

As conseqüências de um amor distante, idílico e enigmático podem ser decifradas pelo leitor sem esforço. É o medo de "chegar", mais uma frustração da vasta coleção que Charlie Brown montou a partir de sentimentos ocidentais. Os sofrimentos do jovem Charlie são muito próximos dos de um certo Werther.

Ocultar personagens é uma prática comum em Peanuts (referência ao apelido de Charlie Brown; no Brasil, Minduin). Os adultos são retratados apenas por suas pernas, como se seu mundo fosse alto, inalcançável. Esse recurso, já utilizado em animações como Tom & Jerry, revigora-se com a inclusão de uma fala enrolada, incompreensível, na versão animada. A imagem é semelhante à do Deus hebraico, que não pode ser visto por humanos em sua grandiosidade e usa o anjo Metatron para intermediar a comunicação. Mas, para Schulz, os adultos não são inatingíveis, apenas enfadonhos e desinteressantes. Quem cresce não vale a pena se não forem vistos pelos olhos dos pequenos intermediários.

Pode-se pensar que, se os personagens entendem a voz dos adultos e nós não, nós somos diferentes deles. Os adultos emitem uma mensagem que é decodificada pelos personagens de Schulz, que retransmitem a nós de uma forma que podemos compreender. Schulz esboça, enfim, uma parábola sobre a função da arte para Aristóteles. A arte é simulação e imitação, e os personagens nos imitam e simplificam para que possamos depreender como é a vida dos adultos. De certa forma, um leitor dos Peanuts nunca será realmente um adulto (naquele sentido pai de família sério e responsável do american way of life). Schulz é nosso tradutor (3).

Como todo grande ficcionista norte-americano, Schulz parece saber que a maturidade é falsa. Mas, diferentemente dos colegas que escrevem grandes romances para quebrar os cristais da sala, Schulz não precisa mostrar o mundo dos adultos. No fim das contas, é porque ele não existe. O mesmo acontece com sua garotinha ruiva invisível. O amor perfeito e idílico, inalcançável, não é uma realidade para Schulz. Nem para nós, criados à sua sombra.

NOTAS PERTINENTES:

(*) Uma primeira versão deste artigo foi publicada em uma série de textos que analisaram personagens de quadrinhos no extinto site Fraude.org. O singelo subtítulo é do editor do site, Bruno Galera, hoje autor do blog Big Muff (www.big-muff.org/blog).

(1) Do jeito que vai, todo o esforço de Schulz parece invalidado aqui no Brasil por uma banda de rock que, ao se propôr herdeira de Charlie Brown, faz-se de filho rebelde e lamentavelmente vai contra tudo o que o pai construiu. Também vale recomendar aqui a bela leitura que os psicanalistas Mario e Diana Corso fazem dos personagens - e da garotinha ruiva em si - no livro Fadas no Divã, lançado no começo deste ano pela editora Artmed.

(2) Alguns chamariam esse amor de "platônico", mas hoje sabe-se que o amor de Platão, tal qual deve caber a um bom grego, jamais seria dirigido a garotinhas ruivas. Por que vocês acham que essa grandiosa civilização acabou?

(3) Mas convém lembrar que “tradutor” e “traidor” são palavras com a mesma raiz.

Um perfil bem definido.

Minhas unhas vermelhas denunciam que ocorreram muitas mudanças em mim. Não que eu ache ruim. Sempre gostei de mudanças. Nunca tive medo delas. Apenas acredito que elas vem nos momentos necessários. Elas vem para o erro ou para o magnífico acerto. Elas vem para que possamos, enfim, decidir nosso caminho.

O tempo corre e tenho o direito (dever) de correr com ele. Brincar de esconde-esconde, pega-pega... Polícia e ladrão. Posso ficar horas buscando características para me definir, e ainda assim não conseguirei expressar tudo... Talvez seja demais querer que todos consigam me entender, já que eu mesma não entendo muita coisa.

Por hoje, não procuro poetas ou compositores para me definir. Acredito que posso fazer isso sozinha, sem o medo mórbido de que não me compreendam. Para aqueles que buscam - ou que quero - recorro às minhas unhas vermelhas, meu caminhar, olhar, o que visto, onde vou... Às palavras que pronuncio. Escancaro tudo o que grita como sou quando estou.

E isso me basta. Deve bastar...

(A. Paula - 11 de Junho de 2010)

Sobre a pequenez das nossas escolhas

Medo, tenho medo
Qual homem não tem medo?
Ter medo não lhe torna menos homem
Pelo contrário, revela sua capacidade humana
Medo e insegurança, são irmãos atraídos pelo fracasso
Insegurança é talvez o sentimento mais desprezível que demonstramos
Já o medo é sublime, como uma inocente criança tímida
E que, por vezes, revela-se rebelde, egoísta e pretenciosa
Eu tenho medo de lhe perder
Medo de que minha insegurança abrace sua liberdade
Medo de que sua risada pertenca aos encantos de outro
Primavera das ilusões
Eu tenho medo de lhe perder
Mas que meu medo não fique evidenciado nos atos impensados
Nos fracassos mal explicados e devaneios arredios
Se num sorriso lhe presenteio à segurança
Em um abraço lhe ofereço conforto
Perceba em meu olhar a desconfiança, a obliquidade
Não a dissimulação, mas sim a simulação do não estou nem aqui
E que seja bem por aí, enquanto houver sol

Contra tudo e todos!

Uma das lendas mais famosas do mundo diz que Einstein teve que repetir várias vezes de ano devido a sua dificuldade com física e matemática. Ao ser perguntado sobre o fato por um repórter, Einstein riu. Na verdade, aos quinze anos ele já dominava cálculo integral e derivada, materias só vistas em cursos voltados para ciências exatas, como engenharia e física. Aos dezenove anos, publicou em uma revista de física alemã um artigo questionando as teorias dos maiores cientistas da época, mas só teve a autoridade para provar que estava certo anos depois.

O fato é extremamente desanimador.

Saber que o maior gênio do século XX também tinha dificuldades nos colocava no mesmo patamar e nos enchia de esperança por um futuro desconhecido. Nos desviava de um determinismo genético e nos fazia acreditar que com determinação, éramos capazes de qualquer coisa.

Mas, peraí, há ainda um porém em tudo isto:

Einstein foi contra tudo e todos de sua família que estava à beira da falência e viam nele um engenheiro que salvaria a família do colapso. Não. Queria ser físico, nada diferente disso. Assistiu sua família se tornar cada dia mais pobre, enquanto mesmo formado em física não conseguia emprego em nenhum lugar da Europa. Seu pai morreu sem saber que o filho não seria apenas o fracassado que estava em sua frente.


Esse fato é extremamente encorajador.

Me faz perceber que o mundo não é uma questão de determinismo genético, eu não nasci pra fazer algo e esquecer que quero fazer outra coisa. Nasci para bater de frente contra tudo e todos (ERGA OMNES), até provar que meus sacrifícios não foram em vão. Acreditar que tenho algo que ninguém mais tem, não porque nasci com isso, mas porque batalhei por isso, é o motor que me faz seguir em frente, dedicando toda minha energia. Isso é o que eu quero, essa é minha vida.

Se eu só tenho uma, nada mais justo do que mirar na lua, acertar ou errar não faz diferença.

Atos Falhos

Nós nunca amamos uma pessoa pelo o que ela realmente é. Amamos alguém pelo aquilo que ela representa para nós. Isso rege todas as relações afetivas humanas. Um filho vai ser sempre um filho. A mãe sempre irá apoiá-lo, mesmo que seu filho seja um assassino, um estuprador, ela irá levar uma marmita para ele na prisão sempre q puder. Ninguém deixa de ser filho. Quando uma mulher diz amar seu namorado, não está mentindo, ela realmente ama seu namorado. Mas é como se ela amasse o personagem, e não o ator.

Após o fim do namoro, você continua a mesma pessoa, os mesmos defeitos, as mesmas qualidades, mas agora você não é mais o namorado. Seu papel mudou. Agora você é o ex. O cargo de protagonista deverá ser ocupado por outra pessoa, e muitos se ofenderam, "como ela é capaz de trocar de namorado tão depressa." Mas ela nunca trocou de namorado. Apenas trocou de ator. Seu imaginário de como é e como deve agir um namorado é o mesmo, e é exatamente isso o que irá regir as comparações e o possível êxito do namoro. As pessoas não mudam. Temos a impressão de vê-las mudando, porque alteramos o papel que ela representava em nossas vidas. É como andar pra trás e ver uma pessoa ficando pequena a medida que caminhamos.

Na psicanálise, é comum ouvimos a expressão "ato falho", quando alguém diz uma palavra querendo dizer outra, acidentalmente. É comum no início de um relacionamento alguém chamar o novo parceiro pelo nome do antigo. Isso normalmente gera um mal estar terrível, e é visto como um péssimo sinal. Pelo contrário, é um ótimo sinal. Significa que você está assumindo o papel ocupado por outra pessoa: ela está aprendendo a ti amar e ti ver como um namorado. O cérebro ainda está se acostumando com a troca de atores, assim como demoramos um pouco para associar o papel de 007 com o rosto de Daniel Craig, e não com o de Pierce Brosnan.

O que essa percepção altera em nosso modo de ver o mundo? Passamos a ser mais tolerantes com as atitudes alheias, a criar menos espectativas fantasiosas. Precisamos desaprender o que a Disney nos ensinou durante toda nossa infância, recriar toda nossa percepção do que é o amor. O amor pela pessoa em si seria um amor eterno, e por isso mesmo, irreal. Devemos aceitar que o amor vai e vem, e o papel de parceiro amoroso será desempenhado por vários atores durante nossa vida e na vida dos outros, por mais doloroso que isso possa ser às vezes.