2010, ano do meu TCC!

Eu ainda não sei o tema, ainda não escolhi o orientador, não sei o que fazer, como fazer, a quem recorrer, mas vamos lá. Tem que sair!!!

Fica a "tese de doutorado" do coelhinho, pra quem ainda não conhece:

Num dia lindo e ensolarado o coelho saiu de sua toca com o notebook e pôs-se a trabalhar, bem concentrado. Pouco depois passou por ali a raposa e viu aquele suculento coelhinho, tão distraído, que chegou a salivar.

No entanto, ela ficou intrigada com a atividade do coelho e aproximou-se, curiosa:

R: - Coelhinho, o que você está fazendo ai tão concentrado?
C: - Estou redigindo a minha tese de doutorado, disse o coelho sem tirar os olhos do trabalho.
R: - Humm .. . e qual é o tema da sua tese?
C: - Ah, é uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais de animais como as raposas.

A raposa fica indignada:

R: - Ora! Isso é ridículo! Nos é que somos os predadores dos coelhos!
C: - Absolutamente! Venha comigo à minha toca que eu mostro a minha prova experimental.

O coelho e a raposa entram na toca. Poucos instantes depois ouve-se alguns ruídos indecifráveis, alguns poucos grunhidos e depois silêncio. Em seguida o coelho volta, sozinho, e mais uma vez retoma os trabalhos da sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Meia hora depois passa um lobo. Ao ver o apetitoso coelhinho tão distraído agradece mentalmente a cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido. No entanto, o lobo também acha muito curioso um coelho trabalhando naquela concentração toda. O lobo então resolve saber do que se trata aquilo tudo, antes de devorar o coelhinho:

L: - Olá jovem coelhinho. O que o faz trabalhar tão arduamente?
C: - Minha tese de doutorado, seu lobo. É uma teoria que venho desenvolvendo há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os grandes predadores naturais de vários animais carnívoros, inclusive dos lobos.

O lobo não se contém e farfalha de risos com a petulância do coelho.

L: - Ah, ah, ah, ah!! Coelhinho! Apetitoso coelhinho! Isto é um despropósito. Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa...
C: - Desculpe-me, mas se você quiser eu posso apresentar a minha prova experimental. Você gostaria de acompanhar-me à minha toca?

O lobo não consegue acreditar na sua boa sorte. Ambos desaparecem toca adentro. Alguns instantes depois ouve-se uivos desesperados, ruídos de mastigação e... silêncio. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, impassível, e volta ao trabalho de redação da sua tese, como se nada tivesse acontecido...

Dentro da toca do coelho vê-se uma enorme pilha de ossos ensangüentados e peles de diversas ex-raposas e, ao lado desta, outra pilha ainda maior de ossos e restos mortais daquilo que um dia foram lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme leão, satisfeito, bem alimentado e sonolento, a palitar os dentes.

MORAL DA HISTÓRIA:
Não importa quão absurdo é o tema de sua tese. Não importa se você não tem o mínimo fundamento científico. Não importa se os seus experimentos nunca cheguem a provar sua teoria.
Não importa nem mesmo se suas idéias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos ... o que importa é QUEM É O SEU ORIENTADOR...

Sobre ônibus e gatos

Esperava o ônibus, com um gato miserável nos braços. Um gato feio e magro.
Poderia ser o menino mais triste com o gato mais feio do mundo.
Não pagaria passagem, de certeza. Sempre passou por debaixo da roleta sem reclamações do cobrador. Embora tivesse onze anos, o tamanho e a magreza lhe deixavam com corpo de criança de bem menos que isso.

A rota era a mesma, no mesmo horário, o motorista era o mesmo. O cobrador também. O menino continuava o mesmo, porém agora tinha um gato. Ele sabia que ninguém lhe cobraria a passagem...

mas e o gato?

Deixariam o gato ir sem pagar?

Tinha uns trocados que ganhara da mãe para comprar pão. Aliás, deveria voltar da aula com o pão, e não com um gato. Gato feio. Gato pobre. Gato sem comida. Magro. Mas cabia direitinho no colo do menino, mais magro ainda. O gato se aninhava, como se nunca tivesse ganhado um colo em toda a vida.

Chega o ônibus.

- Deixa o gato! – Berra o motorista.
- Eu pago pra ele... choraminga o tristonho guri.
- Gato não anda de ônibus, moleque! – Ele reconheceu a voz do cobrador ecoando no ônibus quase vazio. – Gato faz xixi e fede. Deixa ele, ou vai a pé pra casa hoje.
- Mas agora ele é meu amigo! – hesitou e soltou o que lhe agoniava há muito tempo - e você também fede!

Virou as costas e foi para casa a pé, sem pão e com o gato.

A garotinha ruiva

Existe uma para cada um de nós*

A importância de Charles M. Schulz para o mundo ainda está para ser mensurada e, sinceramente, me parece improvável que se possa medir o efeito de pílulas de melancolia distribuídas diariamente para milhões de pessoas ao redor do mundo pelos jornais. Ou ainda exibidas nas noites de domingo do SBT, antes do programa do Trem da Alegria. Essa análise tem sido realizada por infindáveis artigos e teses em disciplinas diversas (1). Por hoje, vamos nos ater à garotinha ruiva.

A garotinha ruiva é o amor de Charlie Brown (2) e uma das personagens mais marcantes de toda a série Peanuts. Apesar disso, teve uma única aparição, no especial de TV "It's Your First Kiss, Charlie Brown", de 1977 - ainda por cima, contra a vontade de Schulz. Nesse especial, ela ganha um nome – Heather - e uma personificação. Contudo, na tira de jornal, a garotinha ruiva nunca apareceu. É apenas mencionada, vista e admirada de longe por Charlie Brown, que fica atrás de uma mureta e comenta com Linus: “Não tem nome: é a garotinha ruiva”.

As conseqüências de um amor distante, idílico e enigmático podem ser decifradas pelo leitor sem esforço. É o medo de "chegar", mais uma frustração da vasta coleção que Charlie Brown montou a partir de sentimentos ocidentais. Os sofrimentos do jovem Charlie são muito próximos dos de um certo Werther.

Ocultar personagens é uma prática comum em Peanuts (referência ao apelido de Charlie Brown; no Brasil, Minduin). Os adultos são retratados apenas por suas pernas, como se seu mundo fosse alto, inalcançável. Esse recurso, já utilizado em animações como Tom & Jerry, revigora-se com a inclusão de uma fala enrolada, incompreensível, na versão animada. A imagem é semelhante à do Deus hebraico, que não pode ser visto por humanos em sua grandiosidade e usa o anjo Metatron para intermediar a comunicação. Mas, para Schulz, os adultos não são inatingíveis, apenas enfadonhos e desinteressantes. Quem cresce não vale a pena se não forem vistos pelos olhos dos pequenos intermediários.

Pode-se pensar que, se os personagens entendem a voz dos adultos e nós não, nós somos diferentes deles. Os adultos emitem uma mensagem que é decodificada pelos personagens de Schulz, que retransmitem a nós de uma forma que podemos compreender. Schulz esboça, enfim, uma parábola sobre a função da arte para Aristóteles. A arte é simulação e imitação, e os personagens nos imitam e simplificam para que possamos depreender como é a vida dos adultos. De certa forma, um leitor dos Peanuts nunca será realmente um adulto (naquele sentido pai de família sério e responsável do american way of life). Schulz é nosso tradutor (3).

Como todo grande ficcionista norte-americano, Schulz parece saber que a maturidade é falsa. Mas, diferentemente dos colegas que escrevem grandes romances para quebrar os cristais da sala, Schulz não precisa mostrar o mundo dos adultos. No fim das contas, é porque ele não existe. O mesmo acontece com sua garotinha ruiva invisível. O amor perfeito e idílico, inalcançável, não é uma realidade para Schulz. Nem para nós, criados à sua sombra.

NOTAS PERTINENTES:

(*) Uma primeira versão deste artigo foi publicada em uma série de textos que analisaram personagens de quadrinhos no extinto site Fraude.org. O singelo subtítulo é do editor do site, Bruno Galera, hoje autor do blog Big Muff (www.big-muff.org/blog).

(1) Do jeito que vai, todo o esforço de Schulz parece invalidado aqui no Brasil por uma banda de rock que, ao se propôr herdeira de Charlie Brown, faz-se de filho rebelde e lamentavelmente vai contra tudo o que o pai construiu. Também vale recomendar aqui a bela leitura que os psicanalistas Mario e Diana Corso fazem dos personagens - e da garotinha ruiva em si - no livro Fadas no Divã, lançado no começo deste ano pela editora Artmed.

(2) Alguns chamariam esse amor de "platônico", mas hoje sabe-se que o amor de Platão, tal qual deve caber a um bom grego, jamais seria dirigido a garotinhas ruivas. Por que vocês acham que essa grandiosa civilização acabou?

(3) Mas convém lembrar que “tradutor” e “traidor” são palavras com a mesma raiz.

Um perfil bem definido.

Minhas unhas vermelhas denunciam que ocorreram muitas mudanças em mim. Não que eu ache ruim. Sempre gostei de mudanças. Nunca tive medo delas. Apenas acredito que elas vem nos momentos necessários. Elas vem para o erro ou para o magnífico acerto. Elas vem para que possamos, enfim, decidir nosso caminho.

O tempo corre e tenho o direito (dever) de correr com ele. Brincar de esconde-esconde, pega-pega... Polícia e ladrão. Posso ficar horas buscando características para me definir, e ainda assim não conseguirei expressar tudo... Talvez seja demais querer que todos consigam me entender, já que eu mesma não entendo muita coisa.

Por hoje, não procuro poetas ou compositores para me definir. Acredito que posso fazer isso sozinha, sem o medo mórbido de que não me compreendam. Para aqueles que buscam - ou que quero - recorro às minhas unhas vermelhas, meu caminhar, olhar, o que visto, onde vou... Às palavras que pronuncio. Escancaro tudo o que grita como sou quando estou.

E isso me basta. Deve bastar...

(A. Paula - 11 de Junho de 2010)

Sobre a pequenez das nossas escolhas

Medo, tenho medo
Qual homem não tem medo?
Ter medo não lhe torna menos homem
Pelo contrário, revela sua capacidade humana
Medo e insegurança, são irmãos atraídos pelo fracasso
Insegurança é talvez o sentimento mais desprezível que demonstramos
Já o medo é sublime, como uma inocente criança tímida
E que, por vezes, revela-se rebelde, egoísta e pretenciosa
Eu tenho medo de lhe perder
Medo de que minha insegurança abrace sua liberdade
Medo de que sua risada pertenca aos encantos de outro
Primavera das ilusões
Eu tenho medo de lhe perder
Mas que meu medo não fique evidenciado nos atos impensados
Nos fracassos mal explicados e devaneios arredios
Se num sorriso lhe presenteio à segurança
Em um abraço lhe ofereço conforto
Perceba em meu olhar a desconfiança, a obliquidade
Não a dissimulação, mas sim a simulação do não estou nem aqui
E que seja bem por aí, enquanto houver sol

Contra tudo e todos!

Uma das lendas mais famosas do mundo diz que Einstein teve que repetir várias vezes de ano devido a sua dificuldade com física e matemática. Ao ser perguntado sobre o fato por um repórter, Einstein riu. Na verdade, aos quinze anos ele já dominava cálculo integral e derivada, materias só vistas em cursos voltados para ciências exatas, como engenharia e física. Aos dezenove anos, publicou em uma revista de física alemã um artigo questionando as teorias dos maiores cientistas da época, mas só teve a autoridade para provar que estava certo anos depois.

O fato é extremamente desanimador.

Saber que o maior gênio do século XX também tinha dificuldades nos colocava no mesmo patamar e nos enchia de esperança por um futuro desconhecido. Nos desviava de um determinismo genético e nos fazia acreditar que com determinação, éramos capazes de qualquer coisa.

Mas, peraí, há ainda um porém em tudo isto:

Einstein foi contra tudo e todos de sua família que estava à beira da falência e viam nele um engenheiro que salvaria a família do colapso. Não. Queria ser físico, nada diferente disso. Assistiu sua família se tornar cada dia mais pobre, enquanto mesmo formado em física não conseguia emprego em nenhum lugar da Europa. Seu pai morreu sem saber que o filho não seria apenas o fracassado que estava em sua frente.


Esse fato é extremamente encorajador.

Me faz perceber que o mundo não é uma questão de determinismo genético, eu não nasci pra fazer algo e esquecer que quero fazer outra coisa. Nasci para bater de frente contra tudo e todos (ERGA OMNES), até provar que meus sacrifícios não foram em vão. Acreditar que tenho algo que ninguém mais tem, não porque nasci com isso, mas porque batalhei por isso, é o motor que me faz seguir em frente, dedicando toda minha energia. Isso é o que eu quero, essa é minha vida.

Se eu só tenho uma, nada mais justo do que mirar na lua, acertar ou errar não faz diferença.

Atos Falhos

Nós nunca amamos uma pessoa pelo o que ela realmente é. Amamos alguém pelo aquilo que ela representa para nós. Isso rege todas as relações afetivas humanas. Um filho vai ser sempre um filho. A mãe sempre irá apoiá-lo, mesmo que seu filho seja um assassino, um estuprador, ela irá levar uma marmita para ele na prisão sempre q puder. Ninguém deixa de ser filho. Quando uma mulher diz amar seu namorado, não está mentindo, ela realmente ama seu namorado. Mas é como se ela amasse o personagem, e não o ator.

Após o fim do namoro, você continua a mesma pessoa, os mesmos defeitos, as mesmas qualidades, mas agora você não é mais o namorado. Seu papel mudou. Agora você é o ex. O cargo de protagonista deverá ser ocupado por outra pessoa, e muitos se ofenderam, "como ela é capaz de trocar de namorado tão depressa." Mas ela nunca trocou de namorado. Apenas trocou de ator. Seu imaginário de como é e como deve agir um namorado é o mesmo, e é exatamente isso o que irá regir as comparações e o possível êxito do namoro. As pessoas não mudam. Temos a impressão de vê-las mudando, porque alteramos o papel que ela representava em nossas vidas. É como andar pra trás e ver uma pessoa ficando pequena a medida que caminhamos.

Na psicanálise, é comum ouvimos a expressão "ato falho", quando alguém diz uma palavra querendo dizer outra, acidentalmente. É comum no início de um relacionamento alguém chamar o novo parceiro pelo nome do antigo. Isso normalmente gera um mal estar terrível, e é visto como um péssimo sinal. Pelo contrário, é um ótimo sinal. Significa que você está assumindo o papel ocupado por outra pessoa: ela está aprendendo a ti amar e ti ver como um namorado. O cérebro ainda está se acostumando com a troca de atores, assim como demoramos um pouco para associar o papel de 007 com o rosto de Daniel Craig, e não com o de Pierce Brosnan.

O que essa percepção altera em nosso modo de ver o mundo? Passamos a ser mais tolerantes com as atitudes alheias, a criar menos espectativas fantasiosas. Precisamos desaprender o que a Disney nos ensinou durante toda nossa infância, recriar toda nossa percepção do que é o amor. O amor pela pessoa em si seria um amor eterno, e por isso mesmo, irreal. Devemos aceitar que o amor vai e vem, e o papel de parceiro amoroso será desempenhado por vários atores durante nossa vida e na vida dos outros, por mais doloroso que isso possa ser às vezes.