Contos (IM)Pessoais - Parte I

Ele sabia que era impossível. Mas a desejava em seus braços, mais uma vez. E era disso que eram feitos seus segredos: mais uma vez. Em anos, em vezes, em meses. Era impossível mas era doce esperá-la, ainda que não viesse, como na última semana quando de surpresa, a ausência. Arrumou a casa, preparou o jantar. Escolheu o vinho e cuidou para que as velas estivessem cada uma em seu lugar, como se orquestrasse estrelas em seu próprio céu. O céu que daria de presente à ela.

Enfim, abriu a porta e os lábios grossos num sorriso:

- Já faz um ano.
- Um pouco mais.
- Por que demorou tanto?
- É que me apaixonei...

Então a abraçou, como se pudesse perdoá-la por enamorar-se (ensandecida), entre perfumes e mentiras. E voltar.

- Está ainda mais bonita.
- E envelhecida.
- Prefiro assim.
- E eu prefiro você.

A noite era um vento que soprava alívio àqueles corpos queimados de saudade e exaltação. Era a saia do vento, rodando entre o céu e o mar. O amor cigano, o silêncio em festa. E tudo, finalmente, em seu devido lugar.

Ela acordou duas horas antes do despertador e nunca saberia se o alarme do relógio realmente a despertaria. Nunca saberia. Mas já não precisava de bússolas nem fuso-horário, nem números, nem palavras. Mais um beijo. Um banho onde percebeu cada detalhe do seu corpo (tão) explícito. O café-da-manhã que ele preparou enquanto cantarolava aquela febre de serem dois. Dois. Um no outro, mais uma vez (aquela). Tantos anos de espaços, encontros, silêncios. E ainda eram... dois.

Felizes, sorriram(-se). E não era amor. Era água na boca. Água de riacho nascente, inundando o mundo, matando a sede da terra, das flores, das almas sacrificadas nos desertos de concreto.

Ela voltou à sua cidade, suas paredes e confusões. E sempre que o vento brinca com seus cabelos, sorri. É ele, beijando suas memórias impossíveis...

4 comentários:

  1. Viva à magia dos encontros... Mesmo que furtivos... Os belos encontros. =]

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  2. Viva os poetas que sonham um passado que se torna futuro. Viva os loucos, mentes brilhantes deste mundo. Viva as palavras que são como aroma de flores invisíveis.

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  3. Oi Dayvson, amei seu blog!
    Parabéns, lindos textos!
    Beijoss!

    http://rosinarab.blogspot.com

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  4. Verossímil, mais que isso, realidade com sabedoria para quem sabe contar...

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